Memórias de Outros Séculos
14 de Outubro de 1842 — Nevoeiro sobre o TâmisaAs ruas de Londres estavam cobertas por uma névoa densa esta noite, tão espessa que engolia a fraca luz dos lampiões a gás instalados ao longo das calçadas lamacentas. Caminhei entre os mortais sem ser notado, um espectro silencioso oculto sob as abas do meu casaco longo, observando a fragilidade assustadora de suas vidas passageiras. Eles correm desesperadamente contra o relógio, agarrando-se a casacos pesados e lenços de seda, com medo do frio e das doenças, enquanto eu apenas assisto os impérios se erguerem, desmoronarem e suas memórias virarem cinzas.
Sinto falta do calor do sol na pele. É uma lembrança pálida, uma sensação quase abstrata que desbota um pouco mais a cada virada de século. O verdadeiro preço da imortalidade não é a sede insaciável que queima na garganta a cada pôr do sol, mas sim a condenação eterna de ver absolutamente tudo o que você valoriza se transformar em poeira histórica. Os amigos que fiz na juventude do mundo, os artistas com quem compartilhei taças de vinho e ideias revolucionárias, hoje são apenas nomes completamente apagados em lápides frias e cobertas de musgo em cemitérios esquecidos.
22 de Agosto de 1789 — O Sangue e a Fúria de ParisA revolução queima as velhas estruturas da Europa. O cheiro sufocante de pólvora, o pânico generalizado e o aroma metálico do ferro pairam sobre as praças públicas francesas. Os mortais sob o comando dos novos líderes acreditam piamente que estão lutando por conceitos nobres como liberdade e igualdade, mas, para quem já viveu o suficiente, fica claro que eles estão apenas abrindo espaço para novos carrascos assumirem o trono. Para a nossa espécie, no entanto, este caos social é um banquete perfeito disfarçado de justiça histórica.